Desvendando um Norte Erudito

Entre dezembro de 2021 e maio de 2022, o Quarteto Euterpe realizou seis concertos distribuídos por três ciclos, no âmbito do projeto Desvendando um Norte Erudito. O projeto respondeu a uma lacuna real na programação musical do interior Norte de Portugal — a escassez de música de câmara de qualidade fora dos grandes centros urbanos — levando quarteto de cordas a espaços de referência patrimonial e museológica de seis concelhos.

A escolha dos espaços não foi acessória. O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso em Chaves, a Casa de Esmeriz em Vila Nova de Famalicão, o Museu do Côa em Vila Nova de Foz Côa, o Museu do Douro no Peso da Régua, a Casa do Vinho em Valpaços e a Sala dos Arcos do Museu Pio XII em Braga constituíram contextos de receção com identidade própria — acústicas, histórias e memórias que dialogaram ativamente com o repertório apresentado em cada momento.

Cada ciclo estruturou-se em torno de um programa coerente, que articulou obras centrais do canone camerístico com uma estreia absoluta de uma compositora portuguesa emergente. No Ciclo 1, Beethoven e Mendelssohn enquadraram Galandum, de Ana Catarina Barros. No Ciclo 2, Haydn e Joly Braga Santos antecederam Hesitações de Murmúrios, de Ema Ferreira. No Ciclo 3, Villa-Lobos e Smetana deram lugar a Vira, de Sara Marita. As três obras foram encomendadas expressamente para o projeto, com a intenção de que se relacionassem com o património cultural e a identidade da região Norte — um vínculo entre criação contemporânea e território.

A dimensão pedagógica foi parte integrante de cada concerto: um orador convidado, Tiago Gomes de Sousa, musicólogo com formação na Universidade do Minho e na Universidade Nova de Lisboa, contextualizou as obras e os seus enquadramentos histórico-musicais junto do público, contribuindo para uma experiência mais informada e participativa.

Realizado num período ainda marcado pelas restrições pandémicas, o projeto registou excelente ocupação em todos os espaços e recebeu parecer extremamente positivo das entidades acolhedoras. Desvendando um Norte Erudito confirmou que existe procura real por programação de qualidade fora dos circuitos estabelecidos — e que a música de câmara tem lugar e ressonância nos espaços que guardam a memória coletiva de uma região.